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O futebol e a leitura

Nenhum repórter (e havia chusma deles na África do Sul) perguntou a Dunga ou aos jogadores de nossa seleção que livros ou autores lêem. Provavelmente, não lêem nenhum. Dou de barato que Kaká leia o Paulo Coelho e a Bíblia. A Bíblia é um excelente livro, desde que não seja usada pelo bispo e pela bispa, da seita que Kaká segue, a fim de levar dinheiro para os Estados Unidos da América do Norte.
Ora, todo jogo é uma leitura. É preciso ler-lhe o texto, compreendê-lo e interpretrá-lo. Seguir as vírgulas, os pontos, os parágrafos, os diálogos. Descobrir antecipadamente quem é o personagem que faz o papel de vilão. Admito até que os nossos jogadores leram razoavelmente o jogo durante o primeiro tempo. Mas, no segundo tempo, tresleram e desvairaram. O resultado foi que levaram uma boa surra da Holanda.
O certo é que nenhum deles lê, e o Dunga também não. São analfabetos em matéria de leitura. Você viu algum deles com um livro na mão, nos intervalos das disputas da Copa?
Ora, é preciso ler. Pelo menos, para ter um vocabulário correto e saber dizer as coisas. Eles não têm. O que se pode perceber nas entrevistas que concederam aos repórteres. E até aqui no Brasil, quando eles são entrevistados, antes ou depois dos jogos, dizem as mesmas coisas, enfadonhamente. Quando não estropiam as palavras.
Pois bem: é necessário ler, pelo menos para adquirir vocabulário adequado para xingar o adversário.
Há muitos anos, numa Copa em que o Brasil venceu, havia um jogador que foi cognominado “o possesso”. Este, creio eu, havia lido “Os Possessos”, de Dostoievski.
Pelé, Gérson, Rivelino, Didi, Newton Santos, e alguns outros, liam, e liam bem. Garrincha pelo menos lia os almanaques Capivarol e alguns humoristas.
Mas, se algum dos nossos futebolistas ainda lê, lê livros de horror, de arrepiar os cabelos. E mal traduzidos.
Quanto a técnicos, prefiro o Feola, que dormia, ou cochilava, durante as disputas.
Acho também que o novo técnico da nossa seleção, para a próxima Copa deverá ter uma cartilha na mão, para alfabetizar os nossos atletas. É conveniente ensinar-lhes o beabá do drible. Dos passes a longa distância. E não permanecer no ramerrão de passinhos para cá, passinhos para lá, e recuar a bola.
Reconheço, porém, que ainda há alguns que lêem desde meninos. Como o Ganso ou o Neimar.
Não exijo que se lhes ensine a gramática de João Ribeiro. Mas algumas regras de sintaxe são indispensáveis. E que evitem os galicismos. Falem e leiam mesmo a língua portuguesa que aqui se fala e se lê. Nela nos entendemos e embrulhamos os outros. E que sigam as lições de Nenê Prancha.
Sei também que Coelho Neto teve um filho que jogava futebol. Eram outros tempos.
Sem dúvida, a boa leitura pode ser feita nas concentrações e no isolamento. Com ela, voltaremos a ser os craques que já fomos. O que não dá é saber alemão para perder para a Holanda.
Convém ler, para pautar o jogo.

Anníbal Augusto Gama

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Sobrevivência

Este verbo sobreviver é muito expressivo: significa, bem pensado, “viver sobre”. Em idade avançada, que é o caso de “sobrevida”, o homem vive sobre o passado, sobre o que foi ou sobre o que fez. Está aposentado, quer dizer, recolheu-se aos seus aposentos, fechou a porta do quarto para estar só consigo mesmo ou poder ficar nu. Também se pode entender que sobreviver é viver das sobras.
Mas podia haver outro verbo, que seria subviver. Destinar-se-ia àqueles que não sobrevivem, mas, velhos, vivem uma “subvida”, enfermiços ou agônicos, arrastando-se, ou empurrados em cadeiras de rodas.
De vez em quando, vejo velhinhos ou velhinhas ser levados até à porta da casa, para tomar um pouco de sol. Parecem o passarinho do relógio cuco, que sai para bater as horas, horas atrasadas ou muito espaçadas.
Outro dia, os jornais publicaram o retrato do bailarino japonês, Kazuo Ohno, que acabava de morrer, aos cento e três anos. Era uma máscara feia, uma máscara horrorosa da própria morte.
Como dizia o poeta Drummond, “cansado de ser moderno, agora serei eterno”. Ele podia dizer isso, mas quantos podem?
Alguns anos atrás, achando-me na rua, com o meu cachorrinho, à beira da calçada, passou um carro a toda velocidade, quase me raspando os pés, e os jovens, que estavam dentro do veículo, gritaram-me: “Velho, por que você não morre?”
Pois que morresse a avó torta deles.
Há também a expressão, usada pelos médicos, de “doente terminal”. Os médicos pretendem ser eficientes, mas são cruéis. Os doentes terminais ocupam camas que deviam ser destinadas aos recuperáveis. Os doentes terminais já não o são.
Também há aqueles que são a favor do aborto legalizado e livre. Não querem saber se a criança, que está no ventre da mãe, lhes dá ou não o seu consentimento.
Acho uma barata, dentro da pia, lutando desesperadamente para sair dali. Não conseguia. Escorregava, tornava a cair, de costas, no orifício que a sugava. Um jato dágua, mais forte, levá-la-ia para o esgoto. Hesito. Deixo que outro faça o serviço.
Mas há vidas muito breves: a vida das borboletas. Como, porém, elas alegram a vida, palpitando as suas cores pelo jardim!
As tartarugas é que vivem muito, porque são frugais. E o meu papagaio Horácio, que está por aí com uns vinte e cinco anos, em plena mocidade, viverá até os sessenta.
Já os cachorrinhos dificilmente chegam aos dezesseis anos. É pouco. Um vizinho meu, passeia com o seu cachorrinho, que, já velho, está cego, com o pêlo ralo, e diabético. Só lhe resta algum faro, para cheirar a grama.
Fui pescar, numa dessas quintas-feiras, de teimoso que sou, ou por teimosia do meu amigo H.S., porque o dia estava muito frio. Já quase de noite, ao atravessar uma pinguela, carregando as varas e o saco da tralha, escorreguei e caí nas águas, afundando-me até o peito. Foi difícil, muito difícil, sair dali, porque, encharcada a minha roupa, pesava mais vinte quilos, e meus pés, com o meu esforço, afundavam-se mais na lama. Não fosse o meu amigo H. S. que, do barranco, do outro lado, me estender a mão, e permaneceria ali, agitando-me como a barata na pia. Mas afinal ergui-me, com o auxílio do meu amigo. O caso era para riso e alguns goles de cachaça, que fui beber logo em seguida.
Velho sem juízo, dirão.
Os velhos deveriam ser deixados à vontade, para resmungar, xingar, esbravejar e rir.
Rir de si mesmos e dos outros que pode ser que não cheguem à velhice, à sobrevida ou à subvida.

Anníbal Augusto Gama

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As varas de marmelo

O segredo é a alma do negócio. A propaganda é a alma do negócio. Há uma contradição explícita nestas duas frases. Os carros estão sendo vendidos aos montões nas agências, sustentam as estatísticas. No entanto, as fábricas fazem propaganda exageradíssima dos seus modelos, nos jornais, nas revistas e na televisão. Cada uma diz que os seus carros oferecem vantagens que os demais não têm. E todas se calam sobre as mortes, os desastres, que eles provocam nas ruas e nas estradas. Já disse, e torno a repetir: não há nada mais obsoleto do que o automóvel. É o refúgio do individualismo feroz, o símbolo do capitalismo sem entranhas.
Outro dia, já bem tarde da noite, ouvi um estrondo na rua, diante da minha casa. Parecia que estavam arrombando o meu portão de ferro. Felizmente, não. Era um carro que, não sei como, deslizou em marcha-ré, em boa velocidade, e foi bater nas grades e no portão da casa do meu vizinho de frente. Parece que não havia ninguém dentro do carro. Provavelmente, ao estacionarem-no, deixaram de puxar o freio de mão. A barulheira causou certo rebuliço, mas logo tudo se acalmou. Olhei pela janela, e em seguida me desinteressei.
Recentemente, em Ribeirão Preto, fez-se uma corrida de carros, nas ruas. Em conseqüência, ruas e avenidas foram interditadas, o que naturalmente provocou transtornos para boa parte da população. Mas, propalou-se, aumentou em trinta por cento as vendas, nas casas comerciais. O que é mau para uns, é bom para outros.
Quando escrevo estas notas, vai iniciar-se o Campeonato Mundial de Futebol, e Dunga e a sua equipe tratam visitar e homenagear o ditador sanguinário do país onde se vai realizar a Copa do Mundo.
São contradições inexplicáveis, ou antes, injustificáveis. É que o futebol, que era a alegria do povo nos pés de Garrincha, virou um negócio.
A política, nas eleições e depois delas, também virou um negócio. Um negócio sujo, sujíssimo.
Falam em democracia. Que democracia, cara pálida?
Mas a estupidez não mata. Engorda.
Sustentam que aumentou, em muito, o número dos obesos. Nada tenho contra os gordos, e até me simpatizo com eles. Mas vejo, às tardes, sujeitos correndo pelas avenidas, para manter a forma, ou emagrecer. E todos gritam que o colesterol é um perigo. Pois vivam o colesterol e o torresminho, desde que não seja daqueles de quebrar os dentes.
Vai-se perdendo, ou já se perdeu de todo, o sabor da vida. Ela é um esforço, uma batalha, quando devia ser a pacificação e a serenidade.
Vejo nos carros de que já falei outra espécie de propaganda: “Eu pratico o ecosporte”.
Ora, meu caro, vá praticar o ecosporte na cama, com a sua mulher. Ou procure sempre um advogado, ou um odonto-cirurgião. Ou, por desencargo de consciência, um otolaringologista.
Outro dia, relendo as memórias da infância e da adolescência, de Vivaldo Coaracy, vi que ele contava que, no seu tempo de menino, vendiam-se, numa casa de comércio de Icaraí, varas de marmelo. As mesmas crianças, por ordem da mãe ou do pai, iam comprá-las, para serem surradas com elas. E antecipadamente já choravam.
O que nos está faltando são varas de marmelo. Todos as merecem. Também eu.

Anníbal Augusto Gama

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O desaparecimento de Ilírio

Ilírio está desaparecido há dois anos, e ninguém dá notícia de seu paradeiro. Pode ser que o tenham matado e enterrado o seu corpo.
Hoje, pelas nove e meia da manhã, hora em que geralmente estou mal humorado, um sujeito tocou a campainha do portão eletrônico. Pelo espelho da sala, posto ali de propósito, vi a cara do visitante, e não gostei dele. Em todo caso, fui ver o que ele queria, e ele me disse que ali não, que era confidencial o seu recado. Abri-lhe o portão e deixei-o entrar. Estava pronto para reagir, a qualquer gesto seu.
O cara perguntou-me então por Ilírio. Eu sei lá!, respondi. Há mais de dois anos que não o vejo.
Então o visitante sacou do bolso do paletó, um cartão de debito, que me exibiu. Era uma conta de dez reais, de Ilírio. Tive vontade de expulsar dali o intruso, ainda porque ele mexia numa estatueta de bronze, que tenho sobre a mesa. Tomei-lhe das mãos a estatueta, e recoloquei-a no seu lugar. E, em todo caso, em memória de Ilírio, paguei aqueles dez reais de débito. Apontei então a porta da rua para o cobrador, e ele foi embora.
Havia deixado comigo o cartão do débito de dez reais. No verso dele, vi impresso um endereço: Parada do Corvo, n. 205.
Fui ver na planta da cidade onde era a Parada do Corvo. Era longe como o diabo.
Peguei o carro, e toquei-me para a Parada do Corvo. Muitos espaços vazios, muito capim, e só algumas casas que pareciam desabitadas. Achei afinal o número 205. Estacionei o carro, e saí, para investigar. Parecia um depósito. A porta de enrolar estava aberta. Entrei, e a escuridão reinante no lugar, em contraste com a luminosidade de fora, quase não me deixou ver nada. Só apalpei, na parede, uma coisa úmida.
Então, senti uma pancada na cabeça, e caí, desmaiado.
Quando recobrei os sentidos, estava deitado no chão de cimento. Tonto, sem saber o que havia acontecido. A cabeça doía-me muito.
A custo, consegui levantar-me e olhei em volta. E lembrei-me, despropositadamente, que estávamos ás vésperas do Natal.
No cômodo, que era exíguo e frio, vi, pendurados do teto baixo, uns cinqüenta pernis defumados.
Peguei dois pernis, e levei-os comigo, para o carro.
Voltei para casa. Telefonei para Luciana:
― Neste Natal, disse-lhe, teremos pernil defumado.

Anníbal Augusto Gama

CONTINUAÇÃO

A marca do Zorro

Ele passou por aqui... Sinais, signos, insígnias, marcas, assinaturas... A marca do Zorro. Até os animais antediluvianos deixaram a sua marca nas rochas. As mãos imprimem o seu molde no cimento fresco, em Hollywood. Os pedreiros mais anônimos, ao cimentarem uma calçada, não raro deixam ali duas letras do seu nome. E ainda fresco o cimento, os cachorros que passam deixam o rastro das suas patas. Marcam-se, com ferro em brasa, os bois e os cavalos. Não se trata sempre de fazer-se conhecer quem é o proprietário. Todos querem deixar o sinal da sua passagem, o seu testemunho de que aqui ou ali estiveram. O planeta Terra está cheio de cicatrizes e o homem também quis levar o sinal de que ali esteve, na Lua. Até nos túmulos, os epitáfios dizem que ali jaz... No mármore branco das mesas dos cafés e bares, há quem rabisque com um lápis, marcando a sua passagem. Só o vento, a chuva, removem, das dunas de areia do deserto, as pegadas daqueles que por ali andaram, ou morreram, Quando o homem não se marca a si mesmo com tatuagens, ou, nos muros brancos, recém pintados, não vai borrá-los com as suas grafites, que agora já estão sendo tidos como arte. Há também o desenho dos lábios, de batom, na superfície do espelho, da amante que foi embora, e deixou o seu parceiro adormecido no leito. E os cientistas também circundam de anéis as pernas das aves, ou de outros bichos, para saber para onde vão, para onde emigram.
Tudo em vão. Os homens passam irremissivelmete. Até os arquivos zelosamente guardados, acabam desaparecendo, com o fogo que os destrói, ou com as traças que os roem. Os edifícios desmoronam. A impressão digital é removível, através de cirurgias plásticas.
Que marca ficará de nossa triste ou infame civilização?
Debaixo de que ruínas irão encontrar os sinais de que aqui estivemos, como nos lugares calcinados de Pompéia?
Queremos permanecer, quando tudo é perecer.
A humanidade é uma vã palavra.

Anníbal Augusto Gama

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Perca o tempo, mas não perca o peru

Já disse por aí que perder o tempo é achá-lo. Por isso, não ando em busca do tempo perdido, mas do achado. E, se não o acho, imagino-o.
Há tempo de plantar e tempo de colher; tempo de rir e tempo de chorar. O que não nos falta é o tempo, nós é que faltamos para ele. O tempo é uma mudança, e quanto mais muda é a mesma coisa. A Terra é redonda e andar para trás, sempre para trás, afinal nos deixa no mesmo lugar de onde saímos. Na volta ao mundo em oitenta dias, de Júlio Verne, o cavalheiro inglês, depois de completar a sua viagem, achou-se, com a seu criado e a sua amada, com uma sobra de um dia todo. E supunha que tinha pedido um dia, quando o dia ainda lhe sobrava.
Quem diz que não tem tempo, na verdade não tem é a si mesmo. São os sujeitos sufocados pelo trabalho, quando trabalhar é meio de vida e não de morte.
Dinorá diz a seu Amadeu:
― Amadeu, quanto tempo perdido...
E à noite, ambos se perdem de novo nos braços um do outro.
Vou pescar, com o meu amigo H. S., e ambos ficamos a ver as águas rolarem. O peixe que não vem é o tempo que pescamos. E não precisa de isca, de anzol e nem de vara.
Ele faz as contas dos conhecidos ou amigos que já se foram: “Morreu Fulano, morreu Beltrano, morreu Cicrano...“ Sobramos nós dois. Os demais já têm um tempo infinito, e talvez não saibam o que fazer com ele.
Na papelada de uma gaveta, acho uma receita para fazer peru, do compadre Cícero. Na sua casa, há muitos anos, passamos uma noite toda preparando o peru, bebendo e conversando. O compadre Cícero era também pescador, e fui eu que o ensinei a pescar.
― Compadre ― ele me diz ― já está amanhecendo, agora é deixar o peru no forno.
Mas o peru grugruleja no quintal.

Anníbal Augusto Gama

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As ovelhas tosquiadas

Há sempre dois lados (quando não há quatro, cinco, ou mais), e quem tirar conclusões ou fazer julgamentos vendo apenas um lado, pode incorrer em erro grosseiro e ser temerário. Um objeto deve ser olhado de baixo para cima, de cima para baixo e examinado de todos os seus lados. Devemos aproximar-nos dele, afastarmos, sopesá-lo, cheirá-lo, apalpá-lo, para ter uma noção aproximada do que verdadeiramente é. E, ainda assim, erramos muito. Vale, para o caso, aquela anedota de dois ingleses que viajavam no vagão de um trem, sentados um diante do outro. Olhavam ambos, através da janela, a paisagem, o campo, lá fora. E um deles disse ao outro, vendo um rebanho de ovelhas: “Aquelas ovelhas foram tosquiadas”. Ao que o outro retrucou: “Pelo menos do lado de cá”.
O bom sendo indicaria que as ovelhas haviam sido tosquiadas inteiramente. Mas, quem sabe? Para os passageiros não havia prova absoluta de que elas tivessem sido tosquiadas dos dois lados do corpo.
Quando não podemos ter certeza, o melhor suspender o julgamento.
O fato é que somos chamados a tomar decisões, a cada momento. E decidimos pelo que já vimos antes, pela experiência, pelo que nos parece mais certo ou justo. Manter-se isento, imparcial, sufocar a piedade, a emoção, diante disso ou daquilo, é muito difícil.
Fala-se em objetividade, em ser objetivo. E é quase impossível ser objetivo. Os nossos valores não são iguais. Apela-se então para as máquinas, para o diagnóstico feito pelas máquinas. Mas atrás da máquina está o homem que a manobra e que interpreta o que resulta dela.
Talvez seja melhor aceitar as inclinações do nosso coração. Já dizia Pascal: “Le coeur a des raisons que la raison ne connait pas” (“O coração tem razões que a razão não conhece”).
Afinal, todos os homens, os que julgam e os que são julgados, serão um dia também julgados.
E o mais difícil é julgar-se a si mesmo.

Anníbal Augusto Gama

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A guerra intestina

Aquele país estava assolado por uma guerra intestina atroz. Pretendem que as guerras intestinas atacam principalmente as nações sul-americanas, o que é verdade apenas parcial. Historicamente, todas as nações já tiveram guerras intestinas, mas a maioria delas, situadas na Europa, ou ao norte das Américas, soube afinal vacinar-se contra a doença epidêmica e já conseguem evitar essa diarréia. Em compensação, envolvem-se na epidemia da guerra total, e também nos arrastam para essa descarga ainda mais fedida e fatal, na latrina.
As guerras intestinas são quase sempre provocadas pelos salvadores da pátria. Tais sujeitos espremem-se, contorcem-se, vão para a privada dez, vinte vezes por dia, e acabam contaminando a parentela, os agregados, os que vão visitá-los e, quando se vê, todo o território está dejetando, por falta de higiene.
Dor de barriga é uma coisa infame. Se não se tomam as devidas precauções, borra-se nas calças. É preciso uma dieta radical para sarar, porque o que entra pela boca fermenta imediatamente e é logo expelido com estrondos que acabam indo de vizinho para vizinho. Logo o tiroteio está em todos os lugares e a bombarda expande-se.
Também as nações ditas civilizadas são fabricantes de armas. A cada ano inventam armas mais sofisticadas, acumulam-nas, e é preciso vendê-las para fora. Convencem em pouco tempo os que se acham além das suas fronteiras que é necessário armar-se, e para que servem as armas? Para serem descarregadas contra os supostos inimigos. Ora, os inimigos são naturalmente aqueles que estão mais próximos de nós e podem nos atacar. Eventualmente, o ataque pode ser também exportado. Mas as guerras intestinas, restritas em geral a um determinado território, são então as mais prováveis. Embora sejam também um ensaio para a epidemia total.
Atualmente, há facções de bandidos dentro de cada país. E elas se armam com facilidade, através até dos contrabandos, para se digladiar nas ruas, nas praças, nas vilas e, sobretudo, nas grandes cidades. E a guerra intestina propaga-se, é permanente.
Antigamente indicava-se uma terapêutica salutar: era ingerir anualmente um purgante (o purgante de jalapa, por exemplo), para limpar as tripas. O sujeito recolhia-se, tomava uma dose cavalar do purgante, e ia espremer-se, durante todo o dia, no sanitário. De vez em quando, nos intervalos, víamos o pobre homem na janela: amarelo, abatido, frouxo. Mal o conseguíamos cumprimentar, ao passar pela sua casa, e achá-lo na janela. Logo ele pedia desculpas e afundava-se para dentro. Era o purgante que tornava a fazer efeito.
Rebeliões, motins, golpes de estado, revoluções... Transformavam-se, muitas dessas descargas, em guerras intestinas. E o doente, depois de meses, quando logra sarar, sara à custa de degredos, expurgos, exílios, processos. Convém botar para fora, ou na Cadeia, aqueles que continuam infectados pelo bacilo da diarréia.
Camus escreveu aquele romance extraordinário, A Peste. A peste em Oran. Mas a peste está em todos os lugares, e ataca periodicamente depois de adormecida durante alguns anos. Ela se esconde nos lenços, nos porões, nos ratos, cujas pulgas a vão difundir, de uma hora para outra.
A peste é o próprio homem.

Anníbal Augusto Gama

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Sopa de letras e torresminho

Seu Amadeu está sentado, sem se mexer, olhando o vazio. Dinorá, mexe para cá, mexe para lá, desconfia ao vê-lo tão quieto, neste mato tem coelho. Não tem queixas de seu Amadeu, mas homem nenhum presta. As mulheres sabem, Dinorá sabe.
― Amadeu, hoje eu vou fazer uma sopa de letras, que é que você acha?
― Faça, Dinorá, faça, com as letras nós comporemos uma canção de amor.
Ela vai para a cozinha e olha para as panelas de ferro.
Convém alimentar o marido, barriga cheia é apaziguante, os maridos dormem depois de uma boa refeição, e roncam.
― Vou fazer também uns torresminhos bem macios...
― Isso, Dinorá, uns torresminhos de bom toicinho, ah, que bom que é para comer com pão! Vou até à padaria, comprar pão bem quentinho.
― Não vá não, Amadeu, que eu fiz ontem aquele pão de que você gosta.
Ele vai para a janela, e fica olhando para fora. Que é que ele tanto olha para fora? Vai ver que é aquela sirigaita loira, que passa por aqui todas as tardes, sacolejando as ancas.
― Se você, Amadeu, botar a toalha na mesa, os pratos, os talheres, bem que me ajudava...
Seu Amadeu bota a toalha na mesa, os guardanapos (guardanapos de linho, tanto ela como ele faziam questão, nada disso de guardanapos de papel e toalha de plástico).
― Bota também a pimentinha, e a lata de azeite Gallo.
Carne com molho ferrugem, feijão com caldo grosso, arroz branco bem soltinho. E a sopa de letras, o torresminho.
Dinorá mira-se, de passagem, no espelho.
― Você não acha que eu estou engordando?
― Que nada, Dinorá, você está no ponto como sempre esteve.
A noite vem chegando, este mês de abril, este outono estão esquisitos. Mas as rosas desabrocham no jardim.
Mais tarde, será o crilicri dos grilos, cantando na grama.
Uma borboleta noturna entra na sala, e vai pousar na parede, de asas abertas. Gozado, as outras, diurnas e coloridas, só pousam de asas fechadas.
O cachorrinho late no portão. Deve ser o gato amarelo que veio provocá-lo. Mas é o divertimento de ambos.
― Vem pra dentro, Pichorro!
A garganta seca de tanto latir, o cachorrinho vai beber água fresca.
― Ah, Dinorá, o torresminho estava divino!
E agora, ambos vão compor, com as letras da sopa de letras, uma canção de amor.
― Feche a porta, Amadeu, e apaga a luz.
― Ora, Dinorá, você sabe que eu gosto mesmo é com a luz acesa. Pelo menos a luz do abajur.
― Mas você também sabe, Amadeu, que eu tenho vergonha dos santinhos no oratório...
Os santinhos, porém, cabeceando de sono, aprovam.

Anníbal Augusto Gama

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O Tércio

Com Serra e Dilma empatados, Ciro, que é um estranho no ninho, e Marina, que luta com a porta entreaberta, instaurou-se a dúvida. Marina é a melhor de todos eles, mas o melhor nunca leva. Antes, em situações tais apelava-se para o Tércio. O Tércio estava assistindo ao jogo, aos pontapés, aos trancos, via a bola rolar, olhava para o céu e suspirava. Até que se lembravam dele, o Tércio é a solução, socorramo-nos do Tércio como candidato do consenso. E tiravam-no do seu sossego, vinha ele e tudo se pacificava.
Onde está o Tércio agora? Ninguém sabe, mas para mim ele está no Piauí. Acho que nunca houve um presidente do Piauí, até porque o Piauí é uma ficção geográfica, que às vezes está e às vezes não está nos mapas dos livros escolares distribuídos nas escolas.
Creio que é preciso acreditar nas ficções, até mesmo nas ficções geográficas. Elas são alimento para a imaginação dos homens e das mulheres. E o Piauí e o Tércio acabariam com as disputas que prometem ser sangrentas.
Ele não tem nada para dizer, não tem planos nem projetos, nem faz promessas. Não é contra nem a favor. Não é general nem paisano, não cheira nem fede. Iria apenas pegar a bola e colocá-la no lugar da penalidade máxima e chutar para o gol. Aí Tércio, bola na rede!
Quatro anos de tranquilidade, com o Tércio. Olhem, o campeonato e a Copa do Mundo ficam para depois. Enquanto isso, vocês outros vão treinando na várzea, ou na areia de Copacabana.
Vamos deixar como está, para ver como fica.
Ladrões, bispos de fancaria, padres com ou sem batina, pedófilos e castos, desabamentos, inundações, a dengue, empresários, banqueiros, barraqueiros, a pulga e o carrapato, o sapato e o sapateiro, e a galinha do vizinho, que bota ovo amarelinho enquanto o galo canta, e a janta na mesa.
Dinorá gritaria para seu Amadeu:
― Vem jantar, homem de Deus, senão a comida esfria!

Anníbal Augusto Gama

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Os nomes

Viajando de carro para Paulo de Farias, vi em vários lugares placas à margem da estrada indicando o nome dela: “Rodovia Armando de Sales Oliveira”. Mas o verdadeiro nome daquele que foi governador do Estado de São Paulo, e depois exilado para Portugal, é Armando Salles de Oliveira. Temos o hábito de dar a edifícios, a ruas, a instituições, o nome de pessoas ilustres, ou até obscuras. Seria um modo de as homenagear e lembrá-las. Isto, é claro, não justifica que se estropiem os seus nomes. O nome é um patrimônio moral, e até histórico. Ruy Barbosa é Ruy Barbosa, com “ípsolon”, e não com “i”. O Brasil, que para nós se escreve com “s”, é escrito teimosamente pelos norte-americanos e ingleses com “z”.
Deste modo deturpados os próprios nomes de quem figura ou figurou em nossa história, por seus feitos ou mal feitos, fico imaginando como é que nas escolas se ensinam a mesma história ou geografia. Já não chega a interpretação muitas vezes ideológica, ou perversa, que se faz dos acontecimentos sociais ou políticos, enchendo a cabeça dos estudantes de tolices. Não chegam também o esquecimento a que são condenados outros, e a alteração de dados e fatos.
Os nomes às vezes são transformados na própria coisa que alguém inventou ou fabricou, como é o caso de “Gillette”, que se tornou o nome de uma lâmina de barbear, e não é mais o nome do homem que a produzia e divulgou. Também se costuma nacionalizar os nomes, ou adaptá-los à língua falada ou escrita no país, o que pode ser uma conveniência, mas não raro os tornam rebarbativos. Não é, porém, o que ocorre com os nomes, em geral ingleses, com que se designam o que se refere à informática, às suas operações e tecnologia. Tudo podia ser traduzido para o nosso idioma, o que comumente se faz em Portugal. Aqui não. Aqui, insistimos em ser obscurantistas, dificultando a aprendizagem daqueles que pretendem utilizar-se dessas máquinas modernas.
Não há regras. Não sou partidário de imposições legais que, não raro, são ainda mais estúpidas. Mas acho que é necessário o bom senso para dar o nome certo aos bois. E vejo que é o contrário que se segue, até no linguajar econômico, ou no “economês” dos pedantes que tanto mal nos têm feito, talvez mesmo para continuar a nos enganar.

Anníbal Augusto Gama

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Ao apagar das luzes

Ao apagar das luzes, quando o pano cai ou se cerra a cortina, a platéia vai saindo e ignora o que se passa atrás dos bastidores. Ou apenas imagina. Os atores e as atrizes, nos bastidores e nos camarins, estão desfazendo a maquiagem, lavando a cara e despindo-se da indumentária para vestir a própria roupa. Há sinais de cansaço geral. A peça chegou à décima quarta ou vigésima representação, e a freqüência não foi tão boa como se esperava. Nas últimas noites, o teatro estava até quase vazio. E só um ou outro admirador incondicional levou rosas para a atriz principal. Também, o canastrão que é, ou era o figurante maior, entremeou a sua fala de frases que não existiam no texto, e provocou gargalhadas, quando o caso era antes de choro. Um cretino, que quase todos reprovavam. Um palhaço, e mau palhaço. O diretor pensa: com este sujeito, nunca mais. Mas sabe que o desgraçado é que atrai o público. Tem-no atravessado na garganta, e a vontade é lhe dar uns pontapés. O autor, que não foi chamado ao palco no último espetáculo, reflete que não adianta: o público é vulgar e gosta é de chanchadas e de rebolados.
Todos estão cansados e irritados. Que profissão mais infeliz! A comediante acha que se saiu bem, é ainda moça e tem futuro, ao contrário da estrela, que está decadente e amargurada, porque o seu amante a abandonou. Alguns críticos é que meteram o pau em todo o mundo: no autor, no diretor, no elenco, no cenarista, no iluminador. Chegaram a dizer que havia pulgas no teatro.
Os cartazes estão sendo retirados. O porteiro boceja. Alguém pensa: aquilo afinal foi uma comédia, um drama ou uma tragédia? Talvez uma ópera-bufa.
A noite é fria, e começa a chover. Os carros já rareiam nas ruas. Um mendigo cata restos de comida numa lata de lixo. Está acompanhado por um cão amigo, que olha para ele, com ternura.
A atriz principal belisca a mulher que a ajuda a vestir-se: “Sua bruaca! Onde pôs o meu colar?”
Afinal, todos saem. Alguns vão embriagar-se, para esquecer. Outros fazem planos para o futuro: “Vou arranjar um emprego público”. “Vou afastar-me para uma sitioca e criar galinhas”.
É uma peça de teatro, é uma disputa política em que a eleição foi fraudada, é a vida?
De repente, o estampido de um tiro. Quem matou, quem morreu, quem se suicidou?
Deixem pra lá! É um caso para a polícia, a polícia que resolva.
Mas a polícia também não resolve. Vai permanecer a dúvida, para sempre.
E se de repente, não mais do que de repente, nas últimas semanas antes das eleições, todos se voltassem para Marina, se apaixonassem por Marina, e sufragassem o nome de Marina nas urnas, e de ral modo, tçao avassaladoramente, que ela vencesse mo primeiro turno, derrotando os demais candidatos pela mais larga margem de votos? Precisamos de Marina e não de Martas Suplícios. Precisamos da sua brandura, da sua humildade, e não de voto útil, esra forma acanalhada de tirar vantagem de tudo. PT e PMDB derrotados acachapantemente, Marina pensando com todos nós que é preciso reconstruir o Brasil, ou melhor, contrui-lo, porque ele ainda não foi construido. Pontes, estradas de ferro, os porttos reformados e ampliados, os aeroportos funcionando, o saneamento básico, a saúde, a segurança, e fora todos os privilégios! I reconhecimento das pessoas hoinestas, que são a maioria, mas silenciosa, dos bons tpecnicos e não dos parlapatões, xada um em seu lugar, sem rivalidades, sem despeitos e sem sem-vergonhice. Os Maranhões higienizados, a justiça sendo feita para cada um e sem demora, a educação com professores ensinando e não fazendo greves, oas Bancos e os banqueiros postos no seu devido lugar, as fabricas produzindo e exportando, os lacradores plantando, as medidas provisórias relegadas, os falsos projetos para enganar os trouxas expurgados, o congresso sem o rebotalho que aí está, cada homem e cada mulher retornando para casa, à tarde, com a consciência limpa.

Anníbal Augusto Gama

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Duzentos tiros de garrucha

A garrucha pendurada na parede não é um ornamento, mas um perigo, porque está com os dois canos carregados.
― Seu Osório, por que o senhor mantém essa garrucha pendurada aí na parede, e carregada?
― Ah, é por costume e precisão... Ninguém sabe o que pode acontecer.
Bem, a garrucha está em lugar um pouco mais alto do que ele, e não ao alcance das crianças. Estas, porém, imprevisíveis e curiosas como são, podem pegar uma escada, arrastar um móvel, subir nele e pegar a arma.
― Quantos tiros o senhor já deu com esta garrucha?
― Ah, pra mais de duzentos tiros...
― E acertou todos?
― Uai, quando se atira é para acertar... E quando falha a bala de um cano, tem a outra no outro cano.
Sei que ele teve muitos entreveros, muitas brigas, mas não me consta que haja matado ninguém. Ferido, sim, e respondeu a muitos processos. Agora, quase não sai de casa, fica zanzando pelo quintal e cuidando das plantas.
― O senhor sabe que é preciso registrar as armas de fogo na Delegacia de Polícia, ainda que elas só sejam mantidas dentro de casa?
― Bobagem... Que é que a polícia tem a ver com isso? Os ladrões, os bandidos, registram as suas armas de fogo?
Tinha razão, na minha casa mando eu, e todo cidadão deve ter a sua arma, o cidadão faz parte de uma milícia que, quando é preciso, derruba o governo despótico.
Ele, por exemplo, meteu-se em muitas revoluções, se bem que contasse depois que todas elas são traídas.
― A arma é uma mulher, é preciso saber lidar com ela. Com a arma e com a mulher. Bem tratadas, elas nunca negam fogo.
Casado há mais de cinqüenta anos, a sua Lindoca ainda o admira e respeita.
― Lindoca, minha flor, traz um café e um copo dágua fresca para a nossa visita.
Lindoca, ainda vaidosa, com uma flor entre os cabelos.
― Seu Osorinho, meu marido, espere que eu vou ainda moer o café. É só um instantinho.
O moinho, na janela da cozinha. O café torrado ali mesmo, era ele chamado para vir dar o ponto, na peneira. Café forte.
― A garrucha é uma arma antiquada. Temos hoje as pistolas automáticas, e até as metralhadoras.
― Besteirada. O que vale não é a arma, mas o homem com a mão na arma. Esta minha garrucha aí nunca me negou fogo.
Punhal e garrucha. Armas para serem usadas de perto, quase no corpo a corpo. Ele conserva a sua garrucha azeitada e polido o punhal dentro da bainha.
― O senhor não tem medo da morte, seu Osório?
― Tenho não. Quando comparecer diante do Criador, vou armado com a minha garrucha. E ele me perguntará: “Para que essa garrucha, seu Osorinho? No céu não se usa arma”. E eu lhe responderei: “Usa sim, senhor meu bom Deus. Como foi que o senhor e os seus anjos fiéis expulsaram daqui o Diabo? Foi com raios e trovões. E ele teve de se escafeder”. E o meu Deus me dirá: “Pois então entre, seu Osorinho, alma cândida e valente”.
A garrucha de seu Osório vai continuar pendurada na parede.
Para o que der e vier.

Anníbal Augusto Gama

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Da arte de perder

Assim como há uma arte de vencer, há uma arte mais sutil, que é a arte de perder. As pessoas que preferem ganhar sempre, esquecem que a vitória é uma euforia passageira, carregada de obrigações e compromissos que pesam desmesuradamente, enquanto perder se torna uma lembrança permanente, com muitas reflexões: “Se não tivesse acontecido isso, se aquela bola não tivesse batido na trave, se eu tivesse feito aquilo, e não o que fiz...” Quem olha com desprezo o perdedor esquece que ele também afinal vai perder, de um modo ou de outro. Perder é projetar-se para o passado, enquanto ganhar traz sempre a inquietação de se conservar e se preservar.
Aconselha-se aos que vão vencer: “Não perca a estribeira”. Já os perdedores não têm compromisso nenhum com o estribo, nem com o cavalo. Vão aonde os levam o cavalo, o vento e a estrada.
Uma camisa da qual se perdeu os botões deixa à mostra o peito que será bafejado pela brisa fresca da tarde. Ao contrário, os ganhadores conservam os botões abotoados até o pescoço, e abafam-se.
Vejam os casos dos ganhadores da sorte grande: eles precisam mudar-se de um lugar para outro, estar cercados de guarda-costas, perdem o sono, com medo de ser roubados, e já não têm sonhos deliciosos. O perdedor vai para onde quer, e pendura o chapéu em qualquer lugar.
Os vencedores não encontram explicação para a sua vitória, ou acham que tiveram mais coragem, mais energia, mais perspicácia; e não podem dizer, como os perdedores: “Perdido por perdido, truco!”
A mulher que você amou e perdeu continua sempre presente. E não envelhece, é sempre bela. Mas a mulher que você não perdeu lhe inferniza a vida. Você a cada dia acha nela defeitos que a outra, a perdida, não tem.
E aqui está a verdade: o melhor da festa é esperar por ela. Porque a festa é sempre a mesma coisa, e você acaba entediado ou embriagado.
O certo é que, quando você perde, ou se perde, você se acha. E o ganhador jamais se acha.
Um projeto que não se realizou pode ser um projeto que ainda se realizará. Mas, realizado, ele pode ter conseqüências desastrosas. Por isso, a Otávio, vencedor no Egito, prefira Marco Antônio, que teve Cleópatra nos braços.
Um navio encalhado, que jaz no fundo do mar, conserva o tesouro que continua sendo buscado. Se se consegue tirá-lo dali, é uma decepção.
Gosto mais dos barcos que chegam, e não dos barcos que vão. O peixe que você não fisgou é mais belo, porque nada para longe, enquanto o peixe que foi fisgado vai endurecer no frigorífico.
Nem vale mais um pássaro na mão do que dois voando: Não senhor, os dois que voaram cantam, e o que ficou na mão entristece e perece.
Está errada a exclamação bíblica: “Vae, victis!” Porque os vencidos são aqueles que já não temem, e não têm nada mais a perder.
E quando Proust buscava o tempo perdido já o tinha reencontrado.
Ai dos vencedores, que são homens sem imaginação! Perderam a substância da vida.

Anníbal Augusto Gama

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O Pequeno Gigante

A passeio com o meu cachorrinho Pichorro, chego até uma rua e, do outro lado, em frente, há uma escola maternal, ou coisa parecida, com o nome “Pequeno Gigante”. Parece uma contradição: há gigante pequeno? Mas as crianças são gigantes em desenvolvimento. Deitam pernas, os anos passam, e quando os pais vêem, são gigantes. Não obstante, há aqueles ou aquelas que, adultos, continuam crianças, e deles ou delas se diz: “É um crianção”. Ou uma “criançona”.
Manter a criança dentro do homem ou da mulher maduros, eis a questão. Geralmente a sufocam, ou enforcam. São os cavalheiros solenes e de calvas conspícuas, vestidos de jaquetão e de anel de grau no dedo.
As crianças têm sido vítimas constantes de pedagogos e psicólogos. Não as deixam desenvolver-se como o broto de uma árvore, e abrir-se em flor. Os jornais noticiam que há um conflito azedo e áspero, entre pais e filhos. E muitos meninos e meninas são violentados, ou até assassinados pelos pais. Não se poupam nem os bebês, que são espancados até a morte. Graças a Deus, porém, há pais e mães que se sacrificam inteiramente pelos filhos. O que espanta são aqueles que atiram uma filha pela janela, como é o caso da menina Isabella, cujo pai e madrasta estão sendo julgados. Eles não confessam absolutamente que a mataram, mas não explicam a existência de sangue no local, e insistem que não foi feito o exame de DNA do sangue. Ora, o sangue era humano e, se não era da menina, de quem era, se os pais não apresentavam ferimentos? E a tela da janela, cortada?
Não quero fazer prejulgamento, ainda porque não conheço todas as provas e os autos do processo.
De qualquer maneira, a punição ou a absolvição deixarão manifesto que há algo de errado, e de muito errado, no Brasil e no mundo.
Uma gente que prega o aborto indiscriminadamente, com presidentes que dizem que os contestadores em Cuba, que fazem a greve da fome, são bandidos, já mataram a criança que tinham em si. E bom pai é o Senador Sarney que, diante da notícia de que na Suíça bloqueram os milhões de dólares que o seu filho ali tem num Banco, observa: “Ele é maior de idade e tem advogado”. Portanto, o pai não tem nada com isso.
Eis aí o mundo, do qual não temos nada com isso, embora o Brasil seja um gigante pela própria natureza.

Anníbal Augusto Gama

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Essas casas modernosas...

Antes, as casas e as lojas tinham portas para entrar e sair, janelas, corredores, salas e, se fossem sobrados, escadas para subir e descer. Hoje, graças aos arquitetos modernosos, já não se sabe como entrar ou sair delas. E sei de um sujeito que perdeu a mulher num supermercado, há cinco anos, e até hoje a procura sem a encontrar. Se você não leva consigo um telefone celular, ou um note-book para consultar a internet, não entre nessas casas modernas. Numa delas, que é um hospital, fui visitar um amigo internado. Não o achei, mas achei centenas de informantes que me deram informações contraditórias. Tive antes de vestir um avental e botar um crachá no peito. E, quando vi, estava numa sala de cirurgia, operando um paciente de hemorróidas. Neste mesmo hospital, encontrei numa parede um mapa com uma rota de fuga, em caso de incêndio ou desmoronamento. E permaneci cinco dias, com outras pessoas, tentando decifrar o mapa de rota de fuga. Acho que ainda estou lá. Até aqui, em Ribeirão Preto, há um shopping em que, para você entrar de carro, é preciso ter guiado em Londres. Isto é. deve-se dirigir pela esquerda, não pela direita. E você encontra barreiras por toda parte, para antes enfiar um cartão numa máquina. Depois de várias máquina e cartões nelas enfiados, você acaba se encontrando na rua.
Sei também de dois desconhecidos que se acharam no andar de uma dessas casas ou lojas. O primeiro perguntou ao segundo: “Onde é que fica a escada circular para baixo?” E o outro respondeu: “Não sei. Também eu estou procurando a escada circular para cima”. Afinal, ambos chegaram à conclusão que para baixo ou para cima era a mesma coisa, e resolveram permanecer ali. Foi quando passou por eles um empregado do shopping, e eles acharam de perguntar-lhe onde era o elevador. Ele respondeu: “Boa pergunta. Faz três anos que trabalho aqui e ainda não sei”.

Anníbal Augusto Gama

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Livrarias

Se alguém tiver capital e quiser montar uma livraria, proponho-me como seu sócio. Tenho experiência de quase oitenta anos com os livros. Lendo umas páginas de um livro, sei se ele é bom ou não presta. Conheço o valor das primeiras edições, das velhas revista e dos almanaques. O comprador de livros, ou o eventual leitor, precisa ser bem informado e instruído e posso dar-lhe todas as informações necessárias. Uma livraria que não seja essas livrarias virtuais que estão por aí, nas quais os vendedores ignoram tudo. Sou capaz de falar horas e horas sobre um livro, o seu autor, os caminhos por onde andou. Sopeso um livro, examino a sua encadernação, as suas ilustrações, o seu papel, a sua arte tipográfica. Vou ao colofão (sabem o que é um colofão?), reconheço os autógrafos e as dedicatórias autênticas. Uma das curiosidades de alguns livros é a sua errata. Uma surpreendente errata veio num livro brasileiro em que o autor dizia antes: “enforcou-se na corda pendurada no umbral da porta”. A errata modificava o texto anterior: “cortou a garganta com uma navalha, de orelha a orelha”. As correções que Euclides da Cunha fez na primeira edição de “Os Sertões”, algumas raspando-os com a ponta de um canivete os erros tipográficas, outras rabiscando em cima, são surpreendentes. Os manuscritos de Machado de Assis revelam as modificações que ele fez nos seus romances. Machado não acrescia, mas cortava. E Graciliano Ramos? Graciliano tinha ao seu lado, sobre a mesa, uma garrafa de cachaça. Bebia um gole dela, enquanto escrevia e riscava, com o seu horror ao gerúndio. Clarice Lispector escrevia em pedaços de papel, para depois juntar tudo. Lima Barreto compunha em pedaços de papel de embrulho, e as suas obras eram antes uma barafunda. O trabalho que deu com “Vida e Morte de M. J. para decifrar-lhe a letra e arranjar o seu texto, é contado por que trabalhava com Monteiro Lobato, a quem foi o livro oferecido para publicação.
Uma livraria deve ser um lugar aconchegante, com, quadros nas paredes e objetos de arte. Um lugar onde se possa conversar horas e horas. Cada livro deve estar no lugar próprio, em companhia de outros com os quais tem afinidade. O que não impede certa confusão, aliás conveniente. Às vezes, um livro que durante anos e anos foi buscado e não encontrado, de repente se acha num vão qualquer. Essas surpresas fazem o encanto das livrarias, que são universos onde tudo pode acontecer.
Os bons leitores são longevos e têm muitas histórias para contar.
Também os melhores caixeiros das boas livraria são os fantasmas, pois eles estão em todos os lugares, a vigiar as obras raras, os alfarrábios. Além disso, como se sabe, eles são poliglotas.
De vez em quando, o livreiro recebe uma caixa, vinda de Paris, ou de Londres. Abrir essas caixas e descobrir os livros que estão dentro delas é um dos grandes prazeres da vida.
Eu estava na Livraria Civilização Brasileira, na Rua XV de Novembro, em São Paulo, em 1958, quando chegou ali, da França, algumas caixas de livros. Um dos caixeiros era meu amigo, e convidou-me a ver abrir as caixas. Dentro delas estava a coleção completa de “Causeries du Lundi”, de Sainte-Beuve, em dezoito volumes, que comprei imediatamente e que muitos anos depois mandei encadernar. A aquisição arruinou-me as finanças por três meses, e tive de sobreviver comendo creme de abacate, num boteco da Rua de São Bento.
Tenho por aí cerca de cinco mil livros, e de cada um posso contar a sua história.
A primeira edição de “Os Sertões”, disputei-a com o meu amigo Benedito de Sousa Falleiros. Morávamos juntos num mesmo quarto, na Rua Maria Teresa, mas ele foi mais esperto do que eu, ao despertar mais cedo, ler os jornais, e descobrir o sebo que estava vendendo tal edição. Quando fui para lá, ele já estava retornando, com o livro na mão.
Tirei a forra, algum tempo depois: antes dele, adquiri, numa livraria da Avenida São João, uma edição especial e única, de poucos exemplares, e nunca mais reimpreessa, do livro de contos de Graciliano Ramos, “Dois Dedos”.
Caçar livros é uma aventura prodigiosa, com a vantagem de que não é preciso espingarda. Espingarda precisamos para afugentar aqueles que nos vêm pedir livros emprestados e nunca mais os devolvem, ou os devolvem arruinados.
A minha proposta está de pé: ofereço-me como sócio de quem pretenda abrir uma livraria em Ribeirão Preto, que está precisando de uma verdadeira livraria.

Anníbal Augusto Gama

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Tratem de trabalhar, vagabundos!

No Grupo Escolar, tive uma professora que foi abandonada pelo marido e tomou soda cáustica, para morrer. Não morreu. Permaneceu uma semana na Santa Casa, e depois voltou a dar as suas aulas, mais magra e amarga, mas sempre eficiente. Tive outra que era muito bonita, mas ela me traiu, casando-se com um caixeiro-viajante, e mudou de cidade. As mulheres traem, nem todas, é claro.
Fiquei arrasado, mas afinal consegui superar a sua traição. Uma terceira, no ginásio, era professora de Biologia, e todos os dias chamava-me ao quadro negro para que eu desenhasse ali as figuras do livro adotado, a fim de expô-las aos alunos. Ela aprovava sempre os meus desenhos, com um aceno de cabeça quando eu retornava para a minha carteira.
Acho que as mulheres são vocacionalmente mais dotadas para o ensino do que os homens. São delicadas, e algumas belas. As professoras de antigamente quase sempre sustentavam os maridos, uns vagabundos. As professoras do primário começavam lecionando na roça, para onde tinham de ir todas as manhãs, de charrete. Só mais tarde é que conseguiam promoção efetiva para a cidade.
Antes, as escolas não eram mistas, as classes ou eram só de meninos, ou só de meninas. A separação dos sexos era rigorosa, desde que éramos pequenos, e mais tarde tudo viria a misturar-se. O mesmo acontecia nas igrejas: mulheres para cá, homens pata lá. O que não impedia o namoro e o casamento.
Duros eram os internatos, dos quais escapei. Escolas superiores, só nas Capitais, para onde tínhamos de ir. Começava então a vida nas pensões, algumas infames. A saudade de casa doía. Falar ao telefone interurbano era quase impossível. Levava horas para que a ligação se completasse.
Carro? Nem pensar nisso. Só tive o primeiro, e de segunda mão, aos quarenta anos. Comíamos o pão que o diabo amassou. Mas agüentávamos.
A molecada de hoje não sabe o quanto nos custou a vida. Está aí, sem fazer nada, e esbanjando. Aprender? Que bicho é este? Por isso mesmo, vive às custas dos pais e dos avós, e não se retira de casa, onde tem do bom e do melhor. Estão sempre fazendo mais um curso, o que é um pretexto: mestrado, doutorado, etc. E cada vez mais ignorantes.
Tratem de trabalhar, vagabundos!

Anníbal Augusto Gama

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O anedotário do Sr. Luís Inácio

Acho que o anedotário do Sr. Luís Inácio já daria bem um livro de dois volumes de quatrocentas páginas cada um. E ele, em quase oito anos, continua no palco, com os seus apaniguados contando anedotas, muitas francamente pornográficas. A platéia já está meio cansada, mas ainda consegue rir.
A última anedota que ele contou, e está nos jornais, foi a da fixação da tarifa econômica do trem-bala entre São Paulo e o Rio de Janeiro. Ainda não se plantou nem um dormente do tal trem-bala, e já temos o preço das passagens. É como botar o carro que não há atrás dos bois que não existem.
O Sr. Luís Inácio não perde tempo para fazer rir. Para tanto, se necessário, estropia o idioma e, como o Chacrinha, joga bacalhau para a platéia. A sua parceira, a Dilma, é que é muito sem graça, embora ele a cutuque e a empurre para frente do palco. Mas ele conta com alguns companheiros que o secundam eficazmente, como o Jobim, o Marcos Garcia e o Tarso Cunhado. Também as suas turnês internacionais têm tido muito êxito, como a que fez recentemente à ilha de Cuba, para fazer rir o comandante Fidel, coitado, que está caquético, e ri como uma caveira. Às vezes, ele também deixa a graça para o seu colega bochechudo, o Chaves. Tenho de reconhecer, porém, que são palhaços impagáveis, com as suas maracutaias.
Também se deve convir que o Brasil todo é um vasto anedotário. Temos vocação para a piada. Ultimamente, as anedotas de humor negro parece que são as preferidas. E efetivamente não nos falta motivo para rir, neste país das arábias, em que não há terremotos nem tsumanis. Acho mesmo que o Criador fez o Brasil para ser um santuário de anedotas. Ele convoca os santos e os anjos, mostra a todos o Brasil e lhes diz: “Vamos rir um pouco, antes que chegue o fim dos tempos”. E riem.
Só espero que, contada a última anedota, corram a cortina sobre o palco. Rir já está se tornando fatigante.

Anníbal Augusto Gama

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A publicidade

Acho que a estupidez publicitária tem causado a maioria das idiotices do mundo. Não apenas as idiotices, mas também a discórdia e a canalhice.
Antes, publicidade era propaganda, e a palavra refletia bem o de que tratava: tornava visíveis as propostas dos comerciantes e de outros. Hoje, publicidade quer aparentar uma isenção que não tem e que nunca teve, pretendendo que apenas põe a coisa à disposição do público. Mas não põe, quer fazer crer (e faz), que a coisa, ou o coisa, é a melhor.
Para isso, usa de recursos técnicos, psicológicos e outros, que a propaganda antes não tinha. Vale-se da mídia, e propaga-se em ondas sucessivas, até obnular a inteligência e a crítica de todos.
Para vender os seus produtos, não se tinha antes a não ser os pregões. O vendedor saía pelas ruas e, melodiosamente, cantava as virtudes do que trazia na cesta sobre a própria cabeça, ou numa carrocinha puxada por um burro. Por isso, as cidades eram melodiosas. Apregoava-se.
Atualmente, somos todos massacrados pela publicidade, e criou-se até a chamada “publicidade enganosa”, que é punida, como se toda publicidade, de algum modo, não fosse enganosa.
O lucro é inerente ao comércio. Ninguém abre a porta de uma loja para não vender e não lucrar. Mas admitia-se o debate entre o vendedor e o comprador, e havia a pechincha. Há quase sempre uma fraude tolerada, mas limitada, no mercado.
O que, porém, causa ainda mais espécie é a publicidade que se faz dos políticos. Eles, e os seus partidos, gastam rios de dinheiro para se sobrepujar uns aos outros, quando quase todos são os mesmos enganadores. Contratam empresas especializadas para os divulgar, e tais empresas não têm moral nenhuma: aceitam o que pagar mais.
De onde sai esse dinheiro? Sai das empresas e dos bancos, e até de empresas públicas que, naturalmente, exigirão o retorno. e com ganhos maiores.
Já não há o corpo a corpo dos candidatos, com o povo. Não há os comícios, nos quais eles podiam ser aparteados e vaiados. O sujeito é maquiado e bem penteado, para aparecer nas telas de televisão, com o seu sorriso torto. Se é careca, usa cabeleira postiça. As perguntas que lhes são feitas são previamente combinadas, e as repostas decoradas.
O que se gasta em publicidade é uma imoralidade.
Ninguém precisa ter talento, vocação, e passado limpo. Qualquer bandido pode eleger-se, e comumente são eles os favoritos.
Se isto é democracia representativa, limpo as mãos nas paredes. Que, aliás, já estão sujas de publicidade.

Anníbal Augusto Gama

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