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A guerra intestina

Aquele país estava assolado por uma guerra intestina atroz. Pretendem que as guerras intestinas atacam principalmente as nações sul-americanas, o que é verdade apenas parcial. Historicamente, todas as nações já tiveram guerras intestinas, mas a maioria delas, situadas na Europa, ou ao norte das Américas, soube afinal vacinar-se contra a doença epidêmica e já conseguem evitar essa diarréia. Em compensação, envolvem-se na epidemia da guerra total, e também nos arrastam para essa descarga ainda mais fedida e fatal, na latrina.
As guerras intestinas são quase sempre provocadas pelos salvadores da pátria. Tais sujeitos espremem-se, contorcem-se, vão para a privada dez, vinte vezes por dia, e acabam contaminando a parentela, os agregados, os que vão visitá-los e, quando se vê, todo o território está dejetando, por falta de higiene.
Dor de barriga é uma coisa infame. Se não se tomam as devidas precauções, borra-se nas calças. É preciso uma dieta radical para sarar, porque o que entra pela boca fermenta imediatamente e é logo expelido com estrondos que acabam indo de vizinho para vizinho. Logo o tiroteio está em todos os lugares e a bombarda expande-se.
Também as nações ditas civilizadas são fabricantes de armas. A cada ano inventam armas mais sofisticadas, acumulam-nas, e é preciso vendê-las para fora. Convencem em pouco tempo os que se acham além das suas fronteiras que é necessário armar-se, e para que servem as armas? Para serem descarregadas contra os supostos inimigos. Ora, os inimigos são naturalmente aqueles que estão mais próximos de nós e podem nos atacar. Eventualmente, o ataque pode ser também exportado. Mas as guerras intestinas, restritas em geral a um determinado território, são então as mais prováveis. Embora sejam também um ensaio para a epidemia total.
Atualmente, há facções de bandidos dentro de cada país. E elas se armam com facilidade, através até dos contrabandos, para se digladiar nas ruas, nas praças, nas vilas e, sobretudo, nas grandes cidades. E a guerra intestina propaga-se, é permanente.
Antigamente indicava-se uma terapêutica salutar: era ingerir anualmente um purgante (o purgante de jalapa, por exemplo), para limpar as tripas. O sujeito recolhia-se, tomava uma dose cavalar do purgante, e ia espremer-se, durante todo o dia, no sanitário. De vez em quando, nos intervalos, víamos o pobre homem na janela: amarelo, abatido, frouxo. Mal o conseguíamos cumprimentar, ao passar pela sua casa, e achá-lo na janela. Logo ele pedia desculpas e afundava-se para dentro. Era o purgante que tornava a fazer efeito.
Rebeliões, motins, golpes de estado, revoluções... Transformavam-se, muitas dessas descargas, em guerras intestinas. E o doente, depois de meses, quando logra sarar, sara à custa de degredos, expurgos, exílios, processos. Convém botar para fora, ou na Cadeia, aqueles que continuam infectados pelo bacilo da diarréia.
Camus escreveu aquele romance extraordinário, A Peste. A peste em Oran. Mas a peste está em todos os lugares, e ataca periodicamente depois de adormecida durante alguns anos. Ela se esconde nos lenços, nos porões, nos ratos, cujas pulgas a vão difundir, de uma hora para outra.
A peste é o próprio homem.

Anníbal Augusto Gama

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Sopa de letras e torresminho

Seu Amadeu está sentado, sem se mexer, olhando o vazio. Dinorá, mexe para cá, mexe para lá, desconfia ao vê-lo tão quieto, neste mato tem coelho. Não tem queixas de seu Amadeu, mas homem nenhum presta. As mulheres sabem, Dinorá sabe.
― Amadeu, hoje eu vou fazer uma sopa de letras, que é que você acha?
― Faça, Dinorá, faça, com as letras nós comporemos uma canção de amor.
Ela vai para a cozinha e olha para as panelas de ferro.
Convém alimentar o marido, barriga cheia é apaziguante, os maridos dormem depois de uma boa refeição, e roncam.
― Vou fazer também uns torresminhos bem macios...
― Isso, Dinorá, uns torresminhos de bom toicinho, ah, que bom que é para comer com pão! Vou até à padaria, comprar pão bem quentinho.
― Não vá não, Amadeu, que eu fiz ontem aquele pão de que você gosta.
Ele vai para a janela, e fica olhando para fora. Que é que ele tanto olha para fora? Vai ver que é aquela sirigaita loira, que passa por aqui todas as tardes, sacolejando as ancas.
― Se você, Amadeu, botar a toalha na mesa, os pratos, os talheres, bem que me ajudava...
Seu Amadeu bota a toalha na mesa, os guardanapos (guardanapos de linho, tanto ela como ele faziam questão, nada disso de guardanapos de papel e toalha de plástico).
― Bota também a pimentinha, e a lata de azeite Gallo.
Carne com molho ferrugem, feijão com caldo grosso, arroz branco bem soltinho. E a sopa de letras, o torresminho.
Dinorá mira-se, de passagem, no espelho.
― Você não acha que eu estou engordando?
― Que nada, Dinorá, você está no ponto como sempre esteve.
A noite vem chegando, este mês de abril, este outono estão esquisitos. Mas as rosas desabrocham no jardim.
Mais tarde, será o crilicri dos grilos, cantando na grama.
Uma borboleta noturna entra na sala, e vai pousar na parede, de asas abertas. Gozado, as outras, diurnas e coloridas, só pousam de asas fechadas.
O cachorrinho late no portão. Deve ser o gato amarelo que veio provocá-lo. Mas é o divertimento de ambos.
― Vem pra dentro, Pichorro!
A garganta seca de tanto latir, o cachorrinho vai beber água fresca.
― Ah, Dinorá, o torresminho estava divino!
E agora, ambos vão compor, com as letras da sopa de letras, uma canção de amor.
― Feche a porta, Amadeu, e apaga a luz.
― Ora, Dinorá, você sabe que eu gosto mesmo é com a luz acesa. Pelo menos a luz do abajur.
― Mas você também sabe, Amadeu, que eu tenho vergonha dos santinhos no oratório...
Os santinhos, porém, cabeceando de sono, aprovam.

Anníbal Augusto Gama

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O Tércio

Com Serra e Dilma empatados, Ciro, que é um estranho no ninho, e Marina, que luta com a porta entreaberta, instaurou-se a dúvida. Marina é a melhor de todos eles, mas o melhor nunca leva. Antes, em situações tais apelava-se para o Tércio. O Tércio estava assistindo ao jogo, aos pontapés, aos trancos, via a bola rolar, olhava para o céu e suspirava. Até que se lembravam dele, o Tércio é a solução, socorramo-nos do Tércio como candidato do consenso. E tiravam-no do seu sossego, vinha ele e tudo se pacificava.
Onde está o Tércio agora? Ninguém sabe, mas para mim ele está no Piauí. Acho que nunca houve um presidente do Piauí, até porque o Piauí é uma ficção geográfica, que às vezes está e às vezes não está nos mapas dos livros escolares distribuídos nas escolas.
Creio que é preciso acreditar nas ficções, até mesmo nas ficções geográficas. Elas são alimento para a imaginação dos homens e das mulheres. E o Piauí e o Tércio acabariam com as disputas que prometem ser sangrentas.
Ele não tem nada para dizer, não tem planos nem projetos, nem faz promessas. Não é contra nem a favor. Não é general nem paisano, não cheira nem fede. Iria apenas pegar a bola e colocá-la no lugar da penalidade máxima e chutar para o gol. Aí Tércio, bola na rede!
Quatro anos de tranquilidade, com o Tércio. Olhem, o campeonato e a Copa do Mundo ficam para depois. Enquanto isso, vocês outros vão treinando na várzea, ou na areia de Copacabana.
Vamos deixar como está, para ver como fica.
Ladrões, bispos de fancaria, padres com ou sem batina, pedófilos e castos, desabamentos, inundações, a dengue, empresários, banqueiros, barraqueiros, a pulga e o carrapato, o sapato e o sapateiro, e a galinha do vizinho, que bota ovo amarelinho enquanto o galo canta, e a janta na mesa.
Dinorá gritaria para seu Amadeu:
― Vem jantar, homem de Deus, senão a comida esfria!

Anníbal Augusto Gama

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Os nomes

Viajando de carro para Paulo de Farias, vi em vários lugares placas à margem da estrada indicando o nome dela: “Rodovia Armando de Sales Oliveira”. Mas o verdadeiro nome daquele que foi governador do Estado de São Paulo, e depois exilado para Portugal, é Armando Salles de Oliveira. Temos o hábito de dar a edifícios, a ruas, a instituições, o nome de pessoas ilustres, ou até obscuras. Seria um modo de as homenagear e lembrá-las. Isto, é claro, não justifica que se estropiem os seus nomes. O nome é um patrimônio moral, e até histórico. Ruy Barbosa é Ruy Barbosa, com “ípsolon”, e não com “i”. O Brasil, que para nós se escreve com “s”, é escrito teimosamente pelos norte-americanos e ingleses com “z”.
Deste modo deturpados os próprios nomes de quem figura ou figurou em nossa história, por seus feitos ou mal feitos, fico imaginando como é que nas escolas se ensinam a mesma história ou geografia. Já não chega a interpretação muitas vezes ideológica, ou perversa, que se faz dos acontecimentos sociais ou políticos, enchendo a cabeça dos estudantes de tolices. Não chegam também o esquecimento a que são condenados outros, e a alteração de dados e fatos.
Os nomes às vezes são transformados na própria coisa que alguém inventou ou fabricou, como é o caso de “Gillette”, que se tornou o nome de uma lâmina de barbear, e não é mais o nome do homem que a produzia e divulgou. Também se costuma nacionalizar os nomes, ou adaptá-los à língua falada ou escrita no país, o que pode ser uma conveniência, mas não raro os tornam rebarbativos. Não é, porém, o que ocorre com os nomes, em geral ingleses, com que se designam o que se refere à informática, às suas operações e tecnologia. Tudo podia ser traduzido para o nosso idioma, o que comumente se faz em Portugal. Aqui não. Aqui, insistimos em ser obscurantistas, dificultando a aprendizagem daqueles que pretendem utilizar-se dessas máquinas modernas.
Não há regras. Não sou partidário de imposições legais que, não raro, são ainda mais estúpidas. Mas acho que é necessário o bom senso para dar o nome certo aos bois. E vejo que é o contrário que se segue, até no linguajar econômico, ou no “economês” dos pedantes que tanto mal nos têm feito, talvez mesmo para continuar a nos enganar.

Anníbal Augusto Gama

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Ao apagar das luzes

Ao apagar das luzes, quando o pano cai ou se cerra a cortina, a platéia vai saindo e ignora o que se passa atrás dos bastidores. Ou apenas imagina. Os atores e as atrizes, nos bastidores e nos camarins, estão desfazendo a maquiagem, lavando a cara e despindo-se da indumentária para vestir a própria roupa. Há sinais de cansaço geral. A peça chegou à décima quarta ou vigésima representação, e a freqüência não foi tão boa como se esperava. Nas últimas noites, o teatro estava até quase vazio. E só um ou outro admirador incondicional levou rosas para a atriz principal. Também, o canastrão que é, ou era o figurante maior, entremeou a sua fala de frases que não existiam no texto, e provocou gargalhadas, quando o caso era antes de choro. Um cretino, que quase todos reprovavam. Um palhaço, e mau palhaço. O diretor pensa: com este sujeito, nunca mais. Mas sabe que o desgraçado é que atrai o público. Tem-no atravessado na garganta, e a vontade é lhe dar uns pontapés. O autor, que não foi chamado ao palco no último espetáculo, reflete que não adianta: o público é vulgar e gosta é de chanchadas e de rebolados.
Todos estão cansados e irritados. Que profissão mais infeliz! A comediante acha que se saiu bem, é ainda moça e tem futuro, ao contrário da estrela, que está decadente e amargurada, porque o seu amante a abandonou. Alguns críticos é que meteram o pau em todo o mundo: no autor, no diretor, no elenco, no cenarista, no iluminador. Chegaram a dizer que havia pulgas no teatro.
Os cartazes estão sendo retirados. O porteiro boceja. Alguém pensa: aquilo afinal foi uma comédia, um drama ou uma tragédia? Talvez uma ópera-bufa.
A noite é fria, e começa a chover. Os carros já rareiam nas ruas. Um mendigo cata restos de comida numa lata de lixo. Está acompanhado por um cão amigo, que olha para ele, com ternura.
A atriz principal belisca a mulher que a ajuda a vestir-se: “Sua bruaca! Onde pôs o meu colar?”
Afinal, todos saem. Alguns vão embriagar-se, para esquecer. Outros fazem planos para o futuro: “Vou arranjar um emprego público”. “Vou afastar-me para uma sitioca e criar galinhas”.
É uma peça de teatro, é uma disputa política em que a eleição foi fraudada, é a vida?
De repente, o estampido de um tiro. Quem matou, quem morreu, quem se suicidou?
Deixem pra lá! É um caso para a polícia, a polícia que resolva.
Mas a polícia também não resolve. Vai permanecer a dúvida, para sempre.
E se de repente, não mais do que de repente, nas últimas semanas antes das eleições, todos se voltassem para Marina, se apaixonassem por Marina, e sufragassem o nome de Marina nas urnas, e de ral modo, tçao avassaladoramente, que ela vencesse mo primeiro turno, derrotando os demais candidatos pela mais larga margem de votos? Precisamos de Marina e não de Martas Suplícios. Precisamos da sua brandura, da sua humildade, e não de voto útil, esra forma acanalhada de tirar vantagem de tudo. PT e PMDB derrotados acachapantemente, Marina pensando com todos nós que é preciso reconstruir o Brasil, ou melhor, contrui-lo, porque ele ainda não foi construido. Pontes, estradas de ferro, os porttos reformados e ampliados, os aeroportos funcionando, o saneamento básico, a saúde, a segurança, e fora todos os privilégios! I reconhecimento das pessoas hoinestas, que são a maioria, mas silenciosa, dos bons tpecnicos e não dos parlapatões, xada um em seu lugar, sem rivalidades, sem despeitos e sem sem-vergonhice. Os Maranhões higienizados, a justiça sendo feita para cada um e sem demora, a educação com professores ensinando e não fazendo greves, oas Bancos e os banqueiros postos no seu devido lugar, as fabricas produzindo e exportando, os lacradores plantando, as medidas provisórias relegadas, os falsos projetos para enganar os trouxas expurgados, o congresso sem o rebotalho que aí está, cada homem e cada mulher retornando para casa, à tarde, com a consciência limpa.

Anníbal Augusto Gama

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Duzentos tiros de garrucha

A garrucha pendurada na parede não é um ornamento, mas um perigo, porque está com os dois canos carregados.
― Seu Osório, por que o senhor mantém essa garrucha pendurada aí na parede, e carregada?
― Ah, é por costume e precisão... Ninguém sabe o que pode acontecer.
Bem, a garrucha está em lugar um pouco mais alto do que ele, e não ao alcance das crianças. Estas, porém, imprevisíveis e curiosas como são, podem pegar uma escada, arrastar um móvel, subir nele e pegar a arma.
― Quantos tiros o senhor já deu com esta garrucha?
― Ah, pra mais de duzentos tiros...
― E acertou todos?
― Uai, quando se atira é para acertar... E quando falha a bala de um cano, tem a outra no outro cano.
Sei que ele teve muitos entreveros, muitas brigas, mas não me consta que haja matado ninguém. Ferido, sim, e respondeu a muitos processos. Agora, quase não sai de casa, fica zanzando pelo quintal e cuidando das plantas.
― O senhor sabe que é preciso registrar as armas de fogo na Delegacia de Polícia, ainda que elas só sejam mantidas dentro de casa?
― Bobagem... Que é que a polícia tem a ver com isso? Os ladrões, os bandidos, registram as suas armas de fogo?
Tinha razão, na minha casa mando eu, e todo cidadão deve ter a sua arma, o cidadão faz parte de uma milícia que, quando é preciso, derruba o governo despótico.
Ele, por exemplo, meteu-se em muitas revoluções, se bem que contasse depois que todas elas são traídas.
― A arma é uma mulher, é preciso saber lidar com ela. Com a arma e com a mulher. Bem tratadas, elas nunca negam fogo.
Casado há mais de cinqüenta anos, a sua Lindoca ainda o admira e respeita.
― Lindoca, minha flor, traz um café e um copo dágua fresca para a nossa visita.
Lindoca, ainda vaidosa, com uma flor entre os cabelos.
― Seu Osorinho, meu marido, espere que eu vou ainda moer o café. É só um instantinho.
O moinho, na janela da cozinha. O café torrado ali mesmo, era ele chamado para vir dar o ponto, na peneira. Café forte.
― A garrucha é uma arma antiquada. Temos hoje as pistolas automáticas, e até as metralhadoras.
― Besteirada. O que vale não é a arma, mas o homem com a mão na arma. Esta minha garrucha aí nunca me negou fogo.
Punhal e garrucha. Armas para serem usadas de perto, quase no corpo a corpo. Ele conserva a sua garrucha azeitada e polido o punhal dentro da bainha.
― O senhor não tem medo da morte, seu Osório?
― Tenho não. Quando comparecer diante do Criador, vou armado com a minha garrucha. E ele me perguntará: “Para que essa garrucha, seu Osorinho? No céu não se usa arma”. E eu lhe responderei: “Usa sim, senhor meu bom Deus. Como foi que o senhor e os seus anjos fiéis expulsaram daqui o Diabo? Foi com raios e trovões. E ele teve de se escafeder”. E o meu Deus me dirá: “Pois então entre, seu Osorinho, alma cândida e valente”.
A garrucha de seu Osório vai continuar pendurada na parede.
Para o que der e vier.

Anníbal Augusto Gama

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Da arte de perder

Assim como há uma arte de vencer, há uma arte mais sutil, que é a arte de perder. As pessoas que preferem ganhar sempre, esquecem que a vitória é uma euforia passageira, carregada de obrigações e compromissos que pesam desmesuradamente, enquanto perder se torna uma lembrança permanente, com muitas reflexões: “Se não tivesse acontecido isso, se aquela bola não tivesse batido na trave, se eu tivesse feito aquilo, e não o que fiz...” Quem olha com desprezo o perdedor esquece que ele também afinal vai perder, de um modo ou de outro. Perder é projetar-se para o passado, enquanto ganhar traz sempre a inquietação de se conservar e se preservar.
Aconselha-se aos que vão vencer: “Não perca a estribeira”. Já os perdedores não têm compromisso nenhum com o estribo, nem com o cavalo. Vão aonde os levam o cavalo, o vento e a estrada.
Uma camisa da qual se perdeu os botões deixa à mostra o peito que será bafejado pela brisa fresca da tarde. Ao contrário, os ganhadores conservam os botões abotoados até o pescoço, e abafam-se.
Vejam os casos dos ganhadores da sorte grande: eles precisam mudar-se de um lugar para outro, estar cercados de guarda-costas, perdem o sono, com medo de ser roubados, e já não têm sonhos deliciosos. O perdedor vai para onde quer, e pendura o chapéu em qualquer lugar.
Os vencedores não encontram explicação para a sua vitória, ou acham que tiveram mais coragem, mais energia, mais perspicácia; e não podem dizer, como os perdedores: “Perdido por perdido, truco!”
A mulher que você amou e perdeu continua sempre presente. E não envelhece, é sempre bela. Mas a mulher que você não perdeu lhe inferniza a vida. Você a cada dia acha nela defeitos que a outra, a perdida, não tem.
E aqui está a verdade: o melhor da festa é esperar por ela. Porque a festa é sempre a mesma coisa, e você acaba entediado ou embriagado.
O certo é que, quando você perde, ou se perde, você se acha. E o ganhador jamais se acha.
Um projeto que não se realizou pode ser um projeto que ainda se realizará. Mas, realizado, ele pode ter conseqüências desastrosas. Por isso, a Otávio, vencedor no Egito, prefira Marco Antônio, que teve Cleópatra nos braços.
Um navio encalhado, que jaz no fundo do mar, conserva o tesouro que continua sendo buscado. Se se consegue tirá-lo dali, é uma decepção.
Gosto mais dos barcos que chegam, e não dos barcos que vão. O peixe que você não fisgou é mais belo, porque nada para longe, enquanto o peixe que foi fisgado vai endurecer no frigorífico.
Nem vale mais um pássaro na mão do que dois voando: Não senhor, os dois que voaram cantam, e o que ficou na mão entristece e perece.
Está errada a exclamação bíblica: “Vae, victis!” Porque os vencidos são aqueles que já não temem, e não têm nada mais a perder.
E quando Proust buscava o tempo perdido já o tinha reencontrado.
Ai dos vencedores, que são homens sem imaginação! Perderam a substância da vida.

Anníbal Augusto Gama

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